Quem tudo quer…

Foi com imenso prazer que aceitei o convite da AUTOPRESS para escrever neste espaço algumas das melhores estórias que vivi ao longo da minha carreira no automobilismo de competição. Acima de tudo, gostaria de partilhar com os leitores momentos inesquecíveis, inigualáveis e que dificilmente têm espaço para se repetirem no desporto automóvel dos nossos dias, quanto mais não seja pelo elevado grau de profissionalismo que envolve a competição. Como tudo o que de bom e de menos bom isso acarreta.

E já que, daqui em diante, estarei nestas páginas todos os meses, gostaria de começar com um episódio que aconteceu no Rali do Benfica (Beja) Iniciados 1979, um campeonato que impressionou muita gente, na altura, porque conseguiu ter mais de 80 inscritos e um muito bom nível competitivo. Foi o primeiro rali que fiz com o volante nas mãos.

Estava super entusiasmado com a oportunidade, até porque ao meu lado ia o Jaime Silvestre, grande amigo e dono do Ford Escort RS2000 de matrícula EZ-11-22 que tinha ficado famoso por ter pertencido ao Giovanni Salvi, que já havia sido vencedor do campeonato. Era um “Full Grupo 1”, um bom automóvel, com o qual eu e o Jaime iniciámos um rali cheio de peripécias, quanto mais não fosse pela chuva ininterrupta que marcou a prova.

Perto do final da prova, dei comigo em segundo lugar. À minha frente ia o Jorge Parente, com outro Ford Escort RS2000, que curiosamente viria a ser campeão nesse ano. Atrás de mim vinha o António Hortinha num Porsche Carrera 2.7. Até eu estava impressionado com a maneira como a prova estava a decorrer. Até parecia o Vatanen… Faltava apenas um troço, que seria a terceira passagem pela Cabeça Gorda, celebrizado por uma zona de quase dois quilómetros com muitas lombas e saltos de alta velocidade, ao bom estilo do Rali dos 1000 Lagos. Como, na segunda passagem, já tinha conseguido fazer essa zona toda a fundo, entrei no troço a 200 por cento. Estava super nervoso pela possibilidade de passar para a frente, ainda para mais porque tinha apostado nuns pneus Firestone Sherpa, que era incontestavelmente os melhores para aquele lamaçal imenso em que estávamos a correr. E, por incrível que pareça, estava tudo a correr lindamente! Parecia que tinha uma terceira mão que me estava a ajudar a guiar tão depressa…

Eis que chego à famosa zona do Poço e, no meio da escuridão da noite, vejo umas luzes no meio do troço. “É o primeiro!”, pensei. Entusiasmado com a hipótese de estar a apanhar o homem que ia à frente, fiquei de cabeça perdida. Na última curva – uma direita feita em terceira, muito longa, que fechava no fim – entrei depressa demais e, antes que conseguisse perceber alguma coisa, já estava às cambalhotas ribanceira abaixo. Assustados, eu e o copiloto tentámos sair do carro pela janela. O Jaime do alto dos seus dois metros gritava: “Fifé! Acho que tenho a perna partida, estou cheio de dores”. Hum… afinal era eu que estava em cima dele a fazer força para sair do carro… O Jaime Silvestre estava aborrecido pelo acidente, até porque, afinal, o automóvel era dele. Disse-me, mais do que uma vez, que não tinha valido a pena arriscar tanto, porque já estávamos numa boa posição e o rali tinha sido francamente bom para nós.

“Desculpa lá, Jaime. Agora já está não vale a pena fazer nada”, tentei acalmá-lo, também eu aborrecido pelo sucedido. De repente, começámos a escutar um ruído de um líquido a escorrer… “Foge, Jaime, que é gasolina e o carro vai explodir!” gritei-lhe. Corremos feito loucos para longe do carro com medo da explosão. Mas, afinal…apenas tínhamos caído dentro de um rio e o barulho que ouvi era água a correr! E nós dois encharcados até aos ossos…

Moral desta história: quem tudo quer tudo perde. Fui guloso, admito, mas naquela altura a hipótese de ganhar o rali era demasiado tentadora. Com mais cabeça e juízo teria terminado o rali em segundo, o que teria sido francamente bom para uma estreia. Até porque as luzes que eu tinha visto…eram de um jipe da GNR que estava estacionado no meio do troço!